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Projeto “Ára Verá”, por Veronice Lovato Rossato
17/03/2006 | Marines Soratto
Veronice Lovato Rossato
 
Palavras-chave: Avaliação; formação de professores
 


O Curso Normal em Nível Médio de Formação de Professores Guarani/Kaiowá – PROJETO “ÁRA VERÁ” (espaço-tempo iluminado) - trata-se de uma ação cujo objetivo geral é formar professores indígenas Guarani/Kaiowá em nível médio, com habilitação para a educação nas comunidades indígenas, educação nas séries iniciais do ensino fundamental e educação infantil. Foi autorizado a funcionar por meio da Deliberação/CEE/MS n.º 6284 de 20 de julho de 2001.

Esta ação emergiu de antiga reivindicação do Movimento dos Professores Guarani/Kaiowá , das comunidades desta etnia e de outras instituições envolvidas com a educação escolar no contexto indígena, que ressaltavam a necessidade de um curso específico de formação de professores indígenas Guarani e Kaiowá. Esta solicitação foi assumida pelo governo estadual de Mato Grosso do Sul e veio ao encontro do projeto proposto pela Secretaria de Estado de Educação/MS, denominado “Educação Escolar Indígena: uma questão de cidadania”, o qual pretendia construir participativamente a política educacional da diversidade étnica, proporcionando o resgate da história e o fortalecimento da identidade dos povos indígenas, valorizando suas culturas. Vários encaminhamentos, desde 1995, foram direcionados para efetivação, através dos órgãos competentes, de um curso de formação específico para os Guarani e Kaiowá, que pudesse atender à demanda dos professores sem habilitação que atuavam em suas comunidades e outros para substituírem os não-indígenas. Em 1998, um Censo Escolar Kaiowá/Guarani  revelava que havia 4.620 crianças e adolescentes de 05 a 14 anos matriculadas nas quatro primeiras séries do Ensino Fundamental, nas 49 escolas de 23 áreas indígenas daquela etnia. Naquele ano estavam trabalhando nestas escolas, 159 professores, sendo apenas 79 Guarani/Kaiowá, dos quais só três tinham o magistério completo e quatro com o curso superior completo ou por completar, nenhum deles específico. A demanda seria de, aproximadamente, 200 professores indígenas desta etnia . 

Diante do quadro, a Secretaria de Estado de Educação  buscou e implementou alternativas, junto à Escola Estadual Vilmar Vieira Matos, em parceria com outras instituições, principalmente com as Prefeituras Municipais em cuja jurisdição se encontram as aldeias guarani/kaiowá, para viabilizar a justa solicitação dos professores desta etnia refletida nas palavras abaixo:
“Queremos, (...) com uma educação que responda às nossas necessidades, reconquistar a autonomia sócio-econômica e cultural e sermos reconhecidos como cidadãos etnicamente diferentes. Neste processo, a escola tem um papel fundamental. Não queremos mais que a escola sirva para desestruturar nossa cultura e nosso jeito de viver, que não passe mais para nossas crianças a idéia de que somos inferiores e que, por isso, precisamos seguir o modelo dos brancos para sermos respeitados.” (Carta da Comissão de Professores Guarani e Kaiowá enviada em 1995 à Secretaria de Estado de Educação/MS).

No início de 1999, a alternativa apresentada foi o curso PROFORMAÇÃO - Programa de Formação de Professores Leigos em Exercício, oferecido pelo MEC. Alguns professores indígenas aderiram a este curso, mas não era a solução que a maioria estava esperando. Assim, em julho daquele mesmo ano, iniciou a primeira etapa presencial de estudos intensivos, do curso de magistério específico, conforme a proposta que já estava sendo elaborada, com a participação dos próprios índios, desde 1997 .
O Projeto Ára Verá prevê o atendimento de várias turmas, conforme a demanda. A primeira turma iniciou em julho de 1999, com 75 alunos matriculados. A maioria já era professor, indicado pela sua comunidade, atuante nas séries iniciais do Ensino Fundamental e Educação Infantil e sem habilitação; muitos deles não haviam completado o ensino fundamental , alguns possuíam habilitação convencional de magistério, ou Ensino Médio completo, ou eram estudantes universitários; poucos estavam fora da sala de aula. Esta turma de 70 professores indígenas guarani e kaiowá concluiu em dezembro de 2003.

Além de responder às demandas colocadas pelas comunidades guarani/kaiowá, o Projeto ÁRA VERÁ atende também aos pressupostos legais, tanto com relação à educação escolar indígena como um todo, como com relação à formação dos profissionais indígenas desta área . As principais normas jurídicas que respaldam esta ação são: Constituição Federal; Diretrizes para a Política Nacional de Educação Escolar Indígena MEC/SEF/DPEF, 1993; LDB nº 9394/96; Resolução CEB nº 03 de 26/06/98; Resolução CEB nº 02/99; Resolução CEB nº 03/99 e Parecer CEB/CNE nº 14/99. No Mato Grosso do Sul essas garantias consolidaram-se na Constituição Estadual/89 – artigo 251, nas Diretrizes Gerais para a Educação Escolar Indígena no MS e na Deliberação nº 4324/95 do Conselho Estadual de Educação/MS, que garantem o direito a uma “educação escolar indígena, intercultural, bilíngüe, específica e diferenciada”.

É, portanto, em razão de tais considerações, que o Projeto Ára Verá se propõe a contribuir para que os professores Guarani e Kaiowá possam participar da construção de suas Escolas Indígenas, propiciando um ensino intercultural e bilíngüe, que valoriza as contribuições desta sociedade indígena nas diversas áreas do conhecimento e garante, ao mesmo tempo, os conhecimentos universalmente acumulados pela humanidade, tanto de não-índios como de outras sociedades indígenas, de forma específica e diferenciada, incluindo as habilidades necessárias para enfrentar criticamente, junto com seu povo, a situação provocada pelo contato com a sociedade dominante, tendo em vista a conquista de sua autonomia sócio-econômica-cultural.
Proposta pedagógica

Pela proposta pedagógica do projeto, os componentes curriculares do curso não apresentam diferenças explícitas em sua nomenclatura (“Ciências Sociais”; “Fundamentos da Educação”; “Línguas e Lingüística”; “Matemática”; “Ciências Naturais”; “Metodologia de Ensino” e “Estágio Supervisionado”), a não ser a introdução de um componente chamado “Cultura Guarani/Kaiowá” (que inclui Linguagens Corporal e Artística). A grande “diferença” do Projeto Ára Verá, que caracteriza a sua especificidade , está na escolha dos conteúdos, na abordagem metodológica, na avaliação e na sua formatação.

A abordagem curricular alternativa baseia-se em três grandes eixos, pelos quais se articulam os conteúdos e a metodologia do curso e que são também as fontes básicas de sobrevivência física e cultural dos Guarani/Kaiowá: teko (cultura), tekoha (território) e ñe’ë (língua). É uma proposta que busca conciliar dois sistemas pedagógicos: o da comunidade educativa indígena e o da instituição escola. O ensino parte da realidade histórica, econômica, política e cultural vivida pelos professores indígenas nas comunidades desta etnia. Para dar conta desta proposta curricular, os princípios metodológicos são o bilingüismo e a interculturalidade, a produção do conhecimento, a totalidade e a especificidade indígena. Esta especificidade é assegurada pela participação efetiva, em todas as etapas do curso, de mestres tradicionais , os quais garantem a orientação de questões próprias da cultura tradicional, desde o seu ponto de vista.

O planejamento do curso não é visto como um engessador da ação, exigindo flexibilidade curricular e valendo-se de diferentes métodos de investigação, pesquisa e práticas docentes. A avaliação é progressiva, contínua e, antes de tudo, formativa, levando em conta competências que envolvem os diferentes aspectos da vida do curso (não só os produtos escritos): capacidade de análise e síntese; capacidade de leitura crítica da realidade; capacidade de expressão oral e escrita; capacidade de organização e planejamento; participação e interesse no avanço coletivo; cumprimento das tarefas e atividades propostas; atuação do cursista na comunidade de origem, principalmente no âmbito escolar;  qualidade do trabalho realizado; empenho nas tarefas escolares; entrega dos trabalhos no prazo determinado; produção de material; participação nas atividades de estudo em grupo na comunidade e nos encontros regionais. Além disso, para a avaliação utiliza-se alguns documentos, como fichas descritivas, auto-avaliações, relatórios, trabalhos realizados orais ou escritos, etc. Como não está prevista reprovação dos alunos, a não ser que abandonem o curso, nenhum aluno foi reprovado, constando apenas quatro evasões. No caso dos cursistas que não desenvolvam satisfatoriamente algumas das competências previstas, é garantida a eles a possibilidade de continuar sendo orientados, além do tempo básico, até que tenham superado a dificuldade.

Estrutura do curso

O curso está formatado de tal maneira que facilitou aos cursistas um estudo de qualidade, em serviço, com o mesmo tempo, ou mais, exigido pela legislação, sem prejudicar o ano letivo das escolas em que são professores. A carga horária total oficial é de 3.210 horas de aula, com 1.250 horas de estudos presenciais intensivos e coletivos, que foram distribuídas em sete etapas de até 25 dias e encontros menores (chamados “encontros de pólo”), intercaladas por etapas intermediárias com mais de 1.960 horas de aula de estudos e práticas junto às comunidades e às escolas indígenas, desenvolvidas pelos professores-cursistas, sob orientação dos professores assistentes . Além disso, houve um tempo complementar de estudos de até um ano para os alunos que necessitaram, conforme previsto no projeto. As etapas intensivas aconteceram durante as férias letivas de verão e de inverno e os “encontros de pólo” em fins de semana, durante os semestres. Também fez parte do projeto os encontros preparatórios, para estudos, avaliação e planejamento do curso, antes de cada etapa intensiva, reunindo representantes dos cursistas e os demais componentes do projeto.

Corpo docente

O corpo docente do Projeto Ára Verá é formado por uma equipe de professores da rede estadual de ensino (“professores-assistentes”) especialmente capacitados para acompanhar os cursistas, individualmente ou por grupos locais em cada aldeia, e por “professores ministrantes” de outras instituições acadêmicas do Estado e de outros locais do país . Além destes, há a Coordenação Geral, a cargo da Gestão de Processos em Educação Escolar Indígena/Coordenadoria de Políticas Específicas em Educação/SED/MS; e uma Coordenação local, composta por um Coordenador Pedagógico, um Coordenador Administrativo e um Colegiado Escolar composto por representantes dos diversos segmentos que compõem o projeto. Todas as etapas presenciais intensivas contaram com a participação de Mestres Tradicionais, geralmente um casal de “rezadores”, acompanhados de crianças e/ou jovens da família, que orientavam nas questões específicas de sua cultura.

Resultados alcançados pela primeira turma

Pode-se afirmar que o Projeto Ára Verá – Curso Normal em Nível Médio – Formação de Professores Kaiowá/Guarani alcançou grande parte de seus objetivos, no decorrer da primeira turma. Sem dúvida este curso representou um grande avanço para a qualificação e habilitação dos profissionais em educação no contexto dos Kaiowá/Guarani, não só indígenas, mas também os seus formadores não indígenas. Este resultado deve-se à modalidade metodológica e estrutural do projeto, que se caracteriza por atender de forma diferenciada as necessidades e os ritmos específicos dos sujeitos deste processo e, também assegurando a construção coletiva do curso, em todas as suas fases, na qual os índios são os protagonistas principais.

Pelo fato de ser específico para professores indígenas da mesma etnia, o curso contribuiu para que houvesse entre os cursistas um ambiente de confiança no qual se sentiam à vontade para se expressar, atingindo, progressivamente, também as mulheres. E este sentir-se à vontade significava também poder expressar-se em sua própria língua, possibilitando que todo o conteúdo construído fosse verbalizado, de forma rica e clara, principalmente na língua Guarani, mas também em Português, alguns com um pouco mais de dificuldade. Era com visível prazer que os grupos faziam as exposições de seus trabalhos. A professora Eunice Dias de Paula (1999, s/p) comentou sobre isso: “É notável observar o quanto gostam de se expressar em público, comprovando o que Meliá disse a respeito do preponderante papel que a palavra exerce entre os Guarani: ‘la palabra lo es todo’ (Elogio de la lengua Guarani, p. 31 ss.)”.
Esta professora analisa rapidamente a situação lingüística do grupo:

“A situação de bilingüismo diglóssico marca fortemente a vida e a realidade desses professores e de suas comunidades e isso esteve presente desde o primeiro momento do curso. A pressão a que a língua Guarani está exposta diante do Português, língua da sociedade dominante e majoritária, se reflete nos inúmeros empréstimos e mudanças de código (codeswitching) que aparecem nas falas dos professores.” (idem).

Esta situação de diglossia , reforçada pela história escolar dos cursistas, reflete-se também na linguagem escrita, fazendo com que escrevam mais e melhor em Português do que na sua língua étnica. Por outro lado, esta foi grandemente valorizada, sendo que alguns começaram a escrevê-la durante o curso. Em ambas as línguas o avanço foi notável na modalidade escrita e também no entendimento e análise das leituras. Sentiram, no entanto, necessidade de dar mais espaço para a língua indígena como objeto de estudo, pois é a disciplina-chave para a mudança de comportamento e para despertar a motivação de todos os conhecimentos. Tiveram muitas oportunidades de escrita: relatórios das pesquisas e das aulas trabalhadas (estágio); sistematização dos trabalhos em grupo e individuais; avaliações e memoriais diários, murais, produção de livros e materiais didáticos, entre outras.

Auxiliados pelas reflexões que a leitura de textos traziam, os cursistas foram fazendo a “leitura do mundo”, conforme Paulo Freire, e construindo parâmetros para uma nova educação escolar que sirva para o “mundo” em que vivem. Brand (2002, s/p), afirma que “o reencontro com a sua história aparece como elemento fundamental para que esses professores possam dar conta de seu papel como protagonistas de uma escola voltada para dentro”, ou seja, para a realidade concreta e atual em que vivem os Guarani/Kaiowá. Para Albuquerque (2002, p.5), é preciso “estudar o passado para entender o presente, para dar densidade ao hoje, para poder se situar no tempo-espaço em movimento”.
Até mesmo o nome do projeto traduz inconscientemente este princípio: “ára verá” quer dizer “tempo-espaço iluminado”. A mesma professora relata:

“Não posso me esquecer do brilho nos olhos dos Guarani, no Curso de Magistério (Projeto Ára Verá), em Dourados (...), a partir das aulas de História. O grupo de professores (...) no dia-a-dia são tratados como se fossem de um só grupo; entrar em contato com a própria história tornou evidente as diferenças entre eles e muitos se referiram a isso com satisfação! Saber tudo sobre a guerra do Paraguai foi outra descoberta que chamou muito a atenção. Os mais velhos dificilmente contam histórias para os mais novos, hoje em dia. Mas isso está começando a mudar! (...) Professores e alunos vão sendo formados pela pesquisa, com a intensa participação da comunidade.” (idem).

A presença de caciques/“rezadores” guarani e kaiowá, como “mestres tradicionais”, inicialmente não muito bem entendida pelos cursistas, passou a ser um dos pontos-chaves para que os alunos percebessem a importância de conhecer e “reaprender” sua própria cultura e história e um incentivo para pesquisar junto aos mais velhos de suas comunidades. “A experiência de estar podendo escrever a história de si mesmos através da voz do seu povo, no caso, principalmente, dos mais velhos que tornaram-se “bibliotecas vivas”, acervos raros para a aprender a cultura, a história tradicional.”(NASCIMENTO, 2005). Pode-se perceber a importância que tiveram os caciques/”rezadores” neste processo, através das palavras de um jovem professor cristão, que reivindicava, na avaliação final, maior participação daqueles em todos os momentos do curso: “Aprendi a valorizar os caciques e as pessoas mais idosas”.

A presença de colegas mais velhos que dominam melhor os conhecimentos tradicionais também contribuiu significativamente nas reflexões e na construção do diálogo intercultural, possibilitando a esses um lugar de relevo junto aos seus jovens pares, situação que não se verificava em outros cursos não específicos.

Nascimento (2005) analisa a proposta metodológica do curso como “uma possibilidade de colocar em confronto o chamado “núcleo/eixo duro” (...) de cada cultura e buscar promover entre elas o diálogo”:

Se por um lado esta inter-relação, enquanto método, criava em todos os envolvidos com o Projeto, a expectativa da reelaboração, da possibilidade de síntese, da compreensão das ambivalências, também, por outro lado, o encontro dos saberes criava a expectativa do reconhecimento da diferença, amadurecendo identidades, propondo ajustes, tolerância, compreendendo metáforas. (...) Traduzir estes momentos parece ser, ainda, o grande desafio epistemológico para quem aposta numa pedagogia intercultural. Entre tantas outras “aprendizagens” acontecidas neste Curso as mais significantes parecem ser: - a instrumentalização metodológica e cognitiva para uma permanente necessidade de investigação, de elaboração, de sistematização de novos conteúdos; o desejo de estar realizando a antropologia de si mesmos, de seu povo; a atitude de ressignificar os chamados conteúdos universais (cristalizados pela cultura escolar ocidental); a autonomia para a elaboração e invenção de projetos pedagógicos e materiais didáticos próprios, particularizados: reinventando a didática. É claro que essas aprendizagens foram permeadas e/ou mediadas por dois fatores fundamentais na vida de cada um, segundo a minha interpretação: o fortalecimento, o orgulho de definir-se como índio, com mais clareza de sua identidade e das possibilidades objetivas de futuro e, talvez, em um processo mais doloroso, a “desconstrução”, a desfragmentação do modelo de escola que cada um viveu e a reorganização do seu próprio conhecimento escolar .

A produção do conhecimento através da pesquisa mereceu destaque, tendo se  refletido nas seguintes atividades: publicação de um livro de contos – “Ñe’ë Poty Kuemi”; de uma coleção (Ñane Mba’eteéva Atykue) de três livretos de receitas tradicionais– remédios (Ñembohoky Ñe’ë Tesãi Rehehápe), artefatos (Te’ýi Rembiapo) e comidas e bebidas (Ñemombe’u Je’upy Rehegua); além da edição de um livro de “iniciação à leitura e escrita” (Tekopotyryakuã). Estas obras estão escritas em língua Guarani e ilustradas pelos próprios cursistas. Também foram feitas pesquisas para um dicionário de palavras antigas e novas da língua Guarani; da geografia de cada aldeia; de mitos kaiowá/guarani, as quais pretendem retomar mais tarde e, talvez, publicá-las. Além disso, elaboraram monografias como trabalho final de curso, cujas pesquisas foram realizadas juntamente com seus alunos, como atividade docente.
Também destaca-se nos cursistas uma nova postura em relação ao trabalho docente: não mais como repassadores, mas como co-construtores de conhecimentos, junto com seus alunos, que venham de sua realidade – a qual supõe a situação interna das comunidades e sua relação com o entorno  -, e que voltem processados para ela, no sentido de melhorar a qualidade escolar e de vida dos seus alunos, aumentar sua auto-estima, promover a revitalização cultural e/ou uma melhor negociação cultural, como era o desejo expresso pelos próprios cursistas  Percebe-se mudanças significativas: perderam o medo, sentem-se seguros, corajosos, motivados para enfrentar os desafios e prosseguir na luta pela construção de uma escola indígena diferenciada, voltada para a sua realidade, para “dentro” de suas comunidades, com as quais passaram a se envolver e se comprometer mais. Muitos já assumiram a coordenação de suas escolas e iniciaram a construção de seus projetos político-pedagógicos específicos e diferenciados; passaram a sentir-se orgulhosos de sua identidade e felizes em sua nova condição de professores mais conscientes e competentes em sua profissão. Estes resultados são visíveis, inclusive nas palavras dos próprios cursistas:

- “Aprendi (...) experiência para trabalhar com aluno (...), descobrindo junto o aprendizado que está escondido na nossa comunidade, como conto, mito e outra história importante. Conheci através da observação, pesquisa e entrevista com idoso ou pessoa mais experiente da comunidade, envolvendo vários conteúdos, a partir do tema, usando (...) a língua materna, (...) procurando aprender a valorização de cada cultura e o valor de cada povo. O trabalho intermediário me ajudou muito a pesquisar e descobrir parte mais interessante da minha comunidade e o papel do professor na sala de aula, levando o trabalho com confiança, com garra, luta e aprender ser um professor(a) batalhador buscando conhecimento (...), que mostra um bom resultado no nosso território chamado aldeia. (Marcilene)

- O curso não ensina só para trabalhar em quatro paredes, ensina muito para trabalhar mais a realidade e o conhecimento dos alunos e da comunidade. Então, precisamos pesquisar com alunos. (...) O curso me ajudou bastante pra mim pensar na minha comunidade, construir juntos e valorizar cultura, língua, costumes, tradição, crença, etc. Isso jamais abandonarei, que vai servir pra mim e para o meu povo guarani/kaiowá.” (Lídio)

- “Durante o curso o espírito guarani/kaiowá falou mais alto, porque tenho mais orgulho de ser um índio Kaiova.” (Edson)

- “... este curso foi um relâmpago que passou sobre mim e apagou a mente vazia (...) Aprendi a valorizar a minha própria língua materna, gostar da minha cultura e viver com o conhecimento tradicional. Este curso mostrou um conhecimento de valorizar a realidade do povo G/K e não copiar o que já está feito. (...) Antes de participar do curso tinha dificuldade de planejar o trabalho para crianças, (...) trabalhava somente através do livro. Hoje, depois de estudar esse curso, trabalho com criança produzindo, construindo o conhecimento juntos, trocando experiências. (Braulina)

- “Antes do curso tinha visão do livro didático (...) Agora sei que posso ir além, como professora indígena tenho compromisso com a comunidade de educar as crianças indígenas a ser um bom Guarani/Kaiowá e a valorizar a própria língua. (...) Agora sei que sou professora, não uma repassadora. Sei que as crianças têm que ser criativas, críticas, que saiba se defender e viver na sociedade indígena e não-indígena, etc.”( Léia)

- No começo não sabíamos por onde começar (...) mas depois (...) achamos um caminho para estudar nossa realidade” (...) o caminho para mostrar à comunidade que a escola guarani tem qualidade de ensino que é diferenciado que estuda realidade.” (Edina)

- Antes (...) quem dizia pra mim trabalhar com as crianças era o livro. (...) A metodologia oferecida no curso eu pensei: será que vai funcionar? Será que vai dar certo? Resolvi eu mesmo, porque o curso atingia o que nós e eu queríamos (...) criei coragem e enfrentei [os pais] explicando como as crianças e o meu trabalho fica mais em liberdade para discutirmos qualquer tema juntos. (...) Agora posso dizer o que é melhor e porque é melhor para as crianças da minha aldeia. Assim a escola não vai trabalhar sozinha, sei como trabalhar a interdisciplinaridade (...) A intermediária serviu pra mim de várias maneiras: de como posso reagir com os alunos, com a comunidade, comigo mesmo, qual é o meu papel como professor com a Secretaria.” (Eliezer Rodrigues)

- “Comecei a me envolver mais com a comunidade, a me interessar nos problemas que a  minha comunidade está passando.” (Janio)

- “Antes (...) eu não tinha noção de como trabalhar, dar uma aula. (...) Foi agoniante para mim, pois nem sabia como seria esse processo. Quando entrei pela primeira vez na minha sala, olhei para aquelas crianças, fiquei assustada, pensei em desistir, porque era uma responsabilidade muito grande e vi que eu não conseguiria fazer nada. (...) Mas logo começou esse curso, para mim foi assim um presente, porque aqui eu aprendi a planejar, criticar, dialogar, aprendi muito com os colegas veteranos. Aprendi a valorizar a minha cultura e valorizar também outras culturas. A melhor parte foi o planejamento, como trabalhar a interdisciplinaridade, as diferentes formas de trabalhar na sala, no pátio, como pesquisar e ser um bom observador. (...) Agora vejo o valor que eu tenho como pessoa, meus direitos e os direitos dos povos indígenas. (...) Agora meu horizonte aparece, posso lutar, ensinar, aprender e resolver juntamente com minha comunidade.” (Denize)

- “Eu me lembro da primeira etapa, meu Deus, pensava que nunca ia prosseguir, que não ia me desenvolver, pois o medo era tão grande; com o passar das etapas presenciais consegui perder a vergonha e o medo, passei a participar mais nos grupos, apresentar os trabalhos em plenário (...), como expor uma idéia.” (Risolena)

- “Foi um tempo precioso, porque fez o meu cérebro funcionar melhor...” (Alfredo)

- “Pra mim foi um presentão que recebi em toda minha vida (...) Eu me sinto feliz e segura (...) Agora tenho força e me orgulho com a minha identidade.” (Cristina S.)

- “O meu lema é desamarrar a consciência de um povo. (...) Sei que é difícil. Essa dificuldade é um avanço para mim, o problema e a dúvida estão sempre me cutucando...” (Valentim)

- “Aprendi a conhecer a minha própria realidade; ter conhecimento da educação guarani/kaiowá; ter uma visão sobre a escola que queremos; conhecer as leis que assegura a educação indígena; conhecer a história dos antepassados e a realidade de hoje; o valor da língua guarani/kaiowá e ter orgulho de ser índio guarani ou kaiowá;  conhecer as história dos ‘tekoha’ ; conhecer as leis dos órgãos públicos: municipal, estadual e federal.”

Enfim, na avaliação do curso, os professores/cursistas destacaram principalmente: a mudança de postura enquanto professor, o planejamento e o trabalho docente de forma interdisciplinar e intercultural; a construção de conhecimentos através do ensino com  pesquisa, em vez de só repassá-los; a valorização dos mais velhos, dos conhecimentos tradicionais, da sua língua e da sua história; o conhecimento da própria realidade, das leis e dos direitos indígenas.

Como eles mesmos afirmam, alguns “acordaram” durante o curso e outros somente depois que o curso acabou, embora alguns ainda necessitem de mais um tempo para que aconteça o “insight” necessário para se darem conta da condição de protagonistas de uma educação escolar própria e diferenciada.
Quanto à estrutura do curso, as etapas presenciais possibilitaram o encontro entre os professores kaiowá/guarani das diversas regiões do Estado, conhecer novos companheiros e refletir com outros que já estão nessa caminhada há mais tempo, trocando idéias e discutindo seus êxitos e dificuldades no cotidiano de suas comunidades e escolas. Possibilitou também, do ponto de vista didático, uma maior articulação entre as disciplinas e conteúdos, embora isso necessitasse ser melhor trabalhado, enquanto proposta metodológica interdisciplinar. 

As etapas intermediárias foram de extrema importância, não só porque os cursistas eram acompanhados em seus locais de trabalho, possibilitando um atendimento mais direto e individual, com aprofundamento dos trabalhos, sem impor limites para que pudessem crescer cada vez mais, mas também pela postura dos professores-assistentes que ajudavam a superar os problemas e “costurar” as questões. Assim manifestou-se um cursista:

“Os professores-assistentes respeitam os cursistas, colocando as coisas no lugar certo e valorizam os nossos “erros”. O interesse, o respeito, o carinho, o jeito de olhar pra nós faz a gente se sentir valorizado e estimulado.” (Rosenildo)

 Para aprofundar alguns assuntos, o curso promoveu também oficinas e encontros de “pólo”, com número menor de cursistas, o que, segundo eles, facilitou mais o aprendizado, possibilitando um esforço individual maior, com melhor participação, mais diálogo, o cursista foi melhor acompanhado, o mais tímido se esforçou mais, pois ficava frente a frente com os colegas.
 
Certamente que muitos conteúdos trabalhados mereceriam mais tempo de estudo para um maior aprofundamento, dada sua relevância para o cotidiano dos professores Kaiowá/Guarani e às suas carências escolares. Entretanto, como avaliou a professora Eunice Dias de Paula :
...“queremos destacar aqui os resultados notáveis alcançados pelos cursistas, consideradas estas limitações. A compreensão dos conceitos, as discussões em torno das hipóteses e dos fatos, as reflexões extremamente pertinentes, demonstraram uma qualidade e um nível de maturidade dificilmente alcançados em cursos similares para professores não-indígenas.”

Além das dificuldades já apontadas, podemos destacar algumas mais relevantes do curso: nem todos os docentes se preocuparam em conhecer melhor a realidade e a história dos Kaiowá e Guarani; faltou articular mais os conhecimentos tradicionais com os acadêmicos/científicos; faltou feedback dos ministrantes em relação a alguns trabalhos desenvolvidos pelos cursistas; faltou maior tempo de presença nas aldeias mais distantes por parte dos professores-assistentes, ocasionado, principalmente, pela dificuldade na infra-estrutura de apoio para as viagens.

Em termos numéricos, um destaque que demonstra o êxito do projeto foi a pouca evasão – de 75 matriculados , apenas quatro abandonaram o curso, sendo que um dos alunos faleceu . Conforme o projeto, o curso estava previsto para um tempo mínimo de três anos, podendo ser expandido para até mais um ano, conforme as necessidades de cada aluno. Dentro do período regular, 40 alunos concluíram todos os trabalhos até o final de 2002, sendo que 30 cursistas necessitaram de mais tempo para concluir satisfatoriamente o curso, avançando os estudos durante 2003, tendo aproveitado este período complementar para aprofundar alguns conteúdos e terminar trabalhos em andamento. Ou seja, concluíram o curso, com aprovação, 70 professores indígenas Guarani e Kaiowá. Quanto a outros conteúdos que necessitariam ser trabalhados, foi sugerido que sejam estudados em capacitações continuadas posteriores.

 Em termos de desdobramentos, os resultados positivos do curso apontam para uma crescente procura para responder às demandas emanadas das comunidades guarani/kaiowá: a segunda turma, de 56 professores indígenas, já está em sua fase final e a terceira turma já está prevista para início de 2006, com mais de 80 candidatos. Além disso, o êxito do projeto revelou-se também pelo fato de que os egressos da primeira turma reivindicaram, junto às universidades, um curso superior de licenciaturas, diferenciado e específico para os professores guarani e kaiowá, que desse continuidade à proposta do Projeto Ára Verá, o qual foi elaborado com a participação efetiva dos ex-alunos indígenas que aguardam seu início para 2005, através da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul em parceria com Universidade Católica Dom Bosco, Universidade Federal de Mato Grosso do Sul e Secretarias Estadual e Municipais de Educação.

Referências Bibliográficas

ALBUQUERQUE, Judite G. O sentido da diferença na Pedagogia Indígena: oportunidades amplas, tensões, formas limitadas de operar com a diferença. Campinas: UNICAMP, 13º COLE, 2002.

BRAND, Antonio. Formação de professores indígenas – um estudo de caso. Campo Grande: UCDB, 2002.

NASCIMENTO, Adir Casaro. Projeto de pesquisa “Professores índios e a escola diferenciada/intercultural:a experiência em escolas indígena Kaiová/Guarani e a prática pedagógica para além da escola”. Campo Grande: UCDB, 2005 (datilografado).

PAULA, Eunice Dias de. Relatório docente. Dourados, Vila São Pedro, 1999.

SED/MS – Curso Normal em Nível Médio – Formação de Professores Guarani/Kaiowá – Projeto Ára Verá. Dourados/MS: Secretaria de Estado de Educação/MS, 1999.



 
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