A grafia adotada para designar o grupo indígena Kadiwéu e seu tronco de origem, os Guaicuru, é da forma como está redigida. Outras formas serão encontradas, devendo-se ao fato de que missionários, viajantes, militares e outros estudiosos a grafaram segundo o período histórico em que estiveram envolvidos com esta população ou segundo seus próprios critérios lingüísticos. O nome está grafado sempre no singular por uma convenção antropológica, em razão de que, na maioria dos casos, são palavras que estão em língua indígena e acrescentar um ‘s’ resultaria em hibridismo, além da possibilidade de as palavras já estarem no plural, ou, ainda, que o plural nem exista nas línguas indígenas correspondentes.
Os Kadiwéu são remanescentes, no Brasil, dos índios da língua ‘Guaicuru’. As tribos Guaicuru compreendiam os grupos Abipón, Mocovi, Toba, Pilagá, Payaguá e os Mbayá que percorriam a região que hoje é o Pantanal Sul Mato-grossense. Dos seis grupos acima citados, são os Mbayá-Guaicuru os ancestrais dos Kadiwéu.
Entre eles é falada a língua Kadiwéu, da família Guaicuru. A origem desse termo vem da língua Guarani, falada pelos povos Guarani. Portanto, esse nome não é autodenominação, foi atribuído por outro povo. No Brasil, boa parte dos nomes que designam povos indígenas foi atribuída por grupos indígenas, geralmente que se enfrentavam em embates intertribais. Outros nomes foram atribuídos por sertanistas do antigo Serviço de Proteção ao Índio (SPI) ou da Fundação Nacional do Índio (FUNAI), muitas vezes, logo após as chamadas ‘expedições de atração’. Sem entenderem a língua, os equívocos foram freqüentes e determinados povos ficaram conhecidos por nomes aleatórios.
Um exemplo de designação de nome, no caso os Guaicuru, um dos missionários que viveu entre eles, no período de 1770, narra que os índios Guarani designavam os estrangeiros e outros grupos segundo a origem geográfica da pessoa. Diziam: ‘estes são os que bebem água de Madri’, referindo-se aos espanhóis, ou ‘estes são os que bebem água do Guacurú’, referindo-se aos que bebiam água de dois rios da região. Uma outra referência é que este nome designa certas aves negras e um tipo de fruto comum naquele ambiente. Posteriormente, os espanhóis alteraram a palavra Guaicuru cortando e acrescentando sílabas. Uma outra versão remete o uso do termo `guacuru´ com o significado de ‘povos corredores’.
Este contexto de designação de nomes reporta ao fato de que os Guaicuru, que ameaçavam continuamente os índios Guarani, foram sendo chamados de Mbayá-Guaicuru e pejorativamente denominados ‘Mbae-ayba’, significando ‘coisas horríveis, veneno, crime’, na língua Guarani. Por contração, a palavra transformou-se em ‘Mbayá’. As variações na forma de escrever Kadiwéu tiveram sua origem na alteração do nome original do único grupo dos Mbayá a se instalar do lado brasileiro, os ‘Cadiguegodis’. Como a palavra era pronunciada na língua indígena, os missionários, militares e pesquisadores que se relacionaram com o grupo foram grafando conforme seus entendimentos, ou seja: Caduveo, Cadiuéu, Cadoveu.
Esses nomes indígenas sofreram contrações e exclusão de letras quando em contato com a língua dos espanhóis. Tal fato permite a recuperação de um contexto que mostra como alguns termos indígenas foram se significando e como tiveram uma historicidade. A própria palavra traz o testemunho de uma história construída com as relações e os sentidos trazidos com as inter-relações humanas, sejam elas por lutas ou simples aproximações.
Retomando, os registros mostram que no final do século XVIII, os ‘Cadiguegodis’ dominavam os dois lados do Rio Paraguai, parte que hoje corresponde o Paraguai, a Bolívia e o Brasil. Naquele período deram início ao deslocamento do Grande Chaco, na região entre Paraguai e Argentina, para as margens do rio Paraguai, na fronteira com o Brasil, vindo a se fixarem nas imediações de onde se encontram atualmente, no Pantanal Sul Mato-grossense, jurisdicionados ao município de Porto Murtinho.
As peculiaridades do Pantanal, como região geográfica, estão contempladas neste breve histórico sobre os Kadiwéu com o objetivo de aproximar o leitor às complexidades das adaptações humanas para sobrevivência naquele ambiente. Alimentação, nomadismo, sobrevivência frente aos espanhóis e outras particularidades dos Kadiwéu podem ser compreendidas percorrendo trilhas ambientais que dão pistas sobre a lógica do grupo para sobreviver e para construir seu modo de ser.
Pantanal pode lembrar brejo, charco, sinônimos normalmente mencionados em dicionários da língua portuguesa. Contudo, neste caso, significa um vocábulo utilizado para substantivar a porção brasileira de uma das maiores planícies de inundação do globo localizadas nos Estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.
Este Pantanal Brasileiro, denominado Mar de Xaraés por antigos exploradores, está localizado no centro da América do Sul, na Bacia do Alto Paraguai que se com uma extensão aproximada de 500.000 km². Parte desta Bacia estende-se por aproximadamente 140.000 km² entre a Bolívia e o Paraguai e, deste total, 139.111 km² estão em território brasileiro formando o Pantanal Mato-grossense.
Estudos arqueológicos consideram que o Pantanal apresentava condições climáticas desfavoráveis à diversidade da vida vegetal e animal. A transição aconteceu em decorrência do processo de umidificação e à conseqüente multiplicação dos tipos e padrões de habitat que enriqueceram a diversidade biológica da região. Considerações paleoambientais [enfocam estudos primitivos dos ambientes] permitem supor que somente após a transformação em uma região geoecologicamente diversificada, houve condições de subsistência, como a caça, a pesca e a coleta possibilitando a fixação de populações indígenas.
A região, segundo estudos geomorfológicos, compõe-se por algumas áreas elevadas, como as ‘morrarias’. Embora a maior parte do Pantanal seja constituída por áreas inundáveis e grandes banhados, na planície pantaneira ocorrem também algumas formas de relevo, popularmente denominadas baías, salinas, cordilheiras, capões-do-mato, vazantes e corixos. As baías são tipos de lagoas que podem ser temporárias ou permanentes; as salinas são baías com grande concentração de sais alcalinos em suas águas; as cordilheiras são elevações que separam as baías areno-argilosas com 1 a 2 metros de altura, caracterizadas por uma densa vegetação; os capões-do-mato distinguem-se das cordilheiras por apresentarem formas circulares e de menor tamanho; as vazantes são os canais temporários ou permanentes que servem de escoadouros às baías e aos rios e, os corixos são pequenos cursos d’água que conectam as baías.
Devido ao fraco declive do terreno pantaneiro, ficam favorecidos os fenômenos das inundações periódicas, o que o caracteriza como um macroecossistema peculiar. As variações climáticas são influenciadas pela complexa rede de fenômenos composta por baixas pressões, alta intensidade de radiações solares e variações de massas de ar, sendo estas responsáveis pelas baixas temperaturas de junho a agosto. O clima pantaneiro é tropical sub-úmido com duas estações distintas, a da seca e a chuvosa. Esta sazonalidade deve ter exercido uma forte influência na adaptação ecológica das populações indígenas que ali se estabeleceram, dentre eles os Kadiwéu.
Estudos da fitogeografia – parte da botânica que trata das relações entre a planta e o meio ambiente – identificou no Pantanal 4 regiões fitogeográficas, a saber: [1] cerradão, campo cerrado, parque de cerrado e campo; [2] vegetação chaquenha ou plantas lenhosas baixas e espinhosas associadas a um [3] campo graminoso geralmente em relevo plano e [4] formação de florestas. A fauna, diversificada e abundante em toda planície, caracteriza o Pantanal como um dos maiores conglomerados de espécies animais do mundo. Devemos à esta riqueza biológica, que contribui para a pesca, caça e coleta, o favorecimento da instalação de populações indígenas na região. Na particularidade dos Guaicuru, que viviam de caça, pesca e coleta de frutos e raízes guiados por um estilo de vida nômade, que os caracterizava por transportar suas moradias para lugares que apresentassem melhores condições de sobrevivência, de proteção aos ataques intertribais e aos ataques de estrangeiros colonizadores.
Em parte, pode-se atribui-se a este estilo de vida coerente com a sazonalidade do ambiente pantaneiro muitos registros que caracterizam os Kadiwéu com um comportamento altivo, ou a negação ao trabalho fixo próprio da agricultura. A nosso ver, a condição de sobrevivência muito complexa era pouco compreendida, sugerindo desconsideração àquele modo inóspito de sobrevivência.
A região pantaneira apresentava aspectos totalmente contrastantes: as áreas que esses índios mais andavam eram impraticáveis durante o período das chuvas e nos tempos de seca, mal podiam ser atravessadas. Devido a tais fatores, a alimentação era variável de abundante em determinados períodos, em outros chegava ao uso restrito de raízes e ao consumo de água lodosa dos pântanos. À essas condições de sobrevivência, acrescenta-se os riscos provenientes da invasão de estrangeiros através da fronteira seca, via Paraguai e Bolívia. Nestes lugares de difícil acesso estavam mais seguros das correrias dos espanhóis, que insistiam em fazer dos Kadiwéu seus vassalos. A índole guerreira e muito valorosa desse povo fez uma resistência, que mesmo depois de duzentos anos de tentativas inúteis, em 1755, os espanhóis nada haviam conseguido.
Um elemento que contribuiu muito para diferenciar a resistência dos Mbayá-Guaicuru foi o cavalo. O grupo conheceu o cavalo através do contato com os espanhóis, no século XVI. Os primeiros cavalos chegaram na América do Sul com os espanhóis em 1535 e eram de sangue ‘árabe’ e ‘bérbere’. Com os cruzamentos os cavalos ficaram uma variedade chamada ‘andaluza’. Foi desse grupo e não dos cavalos ‘curraleiros’, trazidos em 1797 de Goiás, que originou a cavalhada dos índios Guaicuru, em cujo rebanho o ‘tordilho’ predominava.
Dados indicam como sendo em 1543 que os índios caçadores e os canoeiros do vale do Paraguai, os índios Guató e Guaicuru, viram pela primeira vez os cavalos trazidos na expedição de Àlvar Nunez Cabeza de Vaca , entrando pela confluência do Paraguai e Cuiabá. Até então, não era usual o emprego do cavalo no Mato Grosso, pois quando os ‘bandeirantes’ chegaram vieram a pé e encontraram nas povoações espanholas, em território brasileiro, um rebanho regular.
O cavalo foi adotado por povos caçadores e coletores habitantes das campinas e savanas. Na América do Norte, o ano de 1600, estima-se a chegada dos rebanhos eqüinos, culminando no século XX. Dentre as onze tribos indígenas representativas dessa cultura animal, habitantes nas planícies, as mais conhecidas são: os Comanche, os Cheyene e os Teton-Dakota.
Na América do Sul, as regiões do Chaco, Pampa e Patagônia, os grupos indígenas Mbayá, Toba, Mocoví, Albipon e Pilagá dentre os mais expressivos, adotaram culturalmente o uso do cavalo. A introdução e uso do cavalo por tribos indígenas são um fenômeno na América do Sul restrito às poucas áreas, são sem relação cultural, o que contribui como material de estudo para compreensão dos processos de desenvolvimento e de mudança cultural.
A partir dessa inserção, a reprodução e disseminação dos animais foram intensificadas na planície pantaneira. A manutenção dos seis a oito mil cavalos que os Guaicuru possuíam exigia local com pastagens, além de instalação físicas para o grupo. Estrategicamente, os ‘capitães’ se espalhavam por uma área de até 6 km, dependendo do período das inundações do Pantanal, ora habitando lugares altos, ora a planície.
A introdução do cavalo entre esses índios alterou a vida sócio-cultural, política e econômica do grupo, além de lhes valer o codinome de “índios cavaleiros”. Essa condição propiciou-lhes o conhecimento de outros territórios circunvizinhos, a saber: Assunção, no Paraguai, o curso do Rio Paraguai e Cuiabá, no Mato Grosso. Com isso, alargaram seu campo de influência cultural, estabelecendo contato direto com pessoas de diferentes culturas, realizando saques, guerreando e cobrando tributos de outros grupos indígenas subjugados por eles.
Organização Social e Resistência
A organização social dos Mbayá-Guaicuru tem uma estrutura complexa, caracterizada por um tipo de hierarquia constituída por nobres, guerreiros e cativos. Estas informações foram elaboradas segundo estudos que vêm dos missionários, militares, viajantes e etnógrafos a partir de 1770 até os dias atuais.
Os cativos eram constituídos por um maior número de pessoas adultas de ambos os sexos, crianças e seus descendentes, tanto indígenas. Tais pessoas eram capturadas ou adquiridas por meio de trocas com outros grupos étnicos e com estrangeiros. Realizavam trabalhos rotineiros de limpeza, providenciavam alimentos e acompanhavam os senhores em circunstâncias perigosas ou situações inconvenientes, colocando-se em seus lugares para protegê-los.
Os nobres ou capitães e suas esposas e filhos, dividiam-se em duas ordens: nobres hereditários – aqueles de origem de sangue; e os enobrecidos – nobreza obtida por critérios de parentesco ou por situações específicas, como por exemplo: quando a data de nascimento de uma criança dos cativos coincidia com a de um filho de nobre, ou algum feito guerreiro significativo. Outras divisões como nobres superiores e inferiores, podem ser encontradas. Esses nobres foram intitulados pelos espanhóis e portugueses como ‘donas’ e ‘dom’. Os homens e mulheres da nobreza usavam pinturas corporais para demonstrar sua estirpe. As mulheres pintavam cerâmicas com esses mesmos motivos, sendo tais pinturas reconhecidas pela beleza, desenhos e significados sociais.
Os guerreiros ou soldados eram formados por um conjunto de pessoas do sexo masculino. Eram admitidos por meio de “ritos de passagem” constituídos por provas de coragem e de resistência física. Esse grupo vivia centrado em interesses comuns, tinham direito ao uso de nomes especiais e de uma linguagem específica; combatiam a cavalo, eram atacantes, defensores, estrategistas de guerra e respeitados por todos.
O sistema social hierárquico dos Kadiwéu se caracterizou pela integração progressiva do cativo na sociedade, de geração após geração, passando a se reconhecerem como parentes, embora, em determinadas circunstâncias, os senhores recordem a descendência da pessoa integrada. Os nobres tinham pouco ou nenhum filho e usavam a adoção de crianças de outros povos como estilo de renovação de sua sociedade. A maioria dessas crianças era trocada ou trazida involuntariamente das guerras de captura, travadas entre grupos étnicos vizinhos e também dos estrangeiros.
As terras habitadas pelos Kadiwéu e Payaguá, ou os atuais Guató, conhecidos pelo codinome “índios canoeiros”, “piratas dos rios” ou “índios anfíbios” eram objeto de interesse dos europeus. Várias expedições foram organizadas para travar lutas de conquistas. Unidos opuseram resistência constante aos europeus, às missões, aos bandeirantes, impondo sua conduta guerreira também nas relações interétnicas, até que em 1768 o poder dos Kadiwéu começou a declinar com o rompimento da aliança com os Payaguá.
Estrategicamente instalados, a resistência ofensiva desses índios ao processo de colonização contribuiu para a formação territorial do Brasil, no final do século XVII e início do XVIII. A partir de 1760, com a construção do Forte Coimbra, em Miranda, no Mato Grosso do Sul, fronteira com o Paraguai, teve início o processo de aproximação dos brasileiros.
Entre outras indicações que justificaram a construção do Forte Coimbra uma delas discorreu sobre a finalidade de conter os índios Payaguá e Guaicuru. Embora essa necessidade tivesse sido efetivada, na ocasião ela foi um pretexto, considerou Almeida Serra. Realmente, o autor se refere a um ataque traiçoeiro desses índios, ocorrido quando o sargento-mor Camponez seguia as ordens recebidas de Albuquerque - então governador de Cuiabá. Camponez procurava receber bem aos índios da região que já haviam sido vítimas de injustiça e desumanidade dos ‘sertanistas’ – os famosos bandeirantes. Esses levaram os índios a se tornarem inimigos dos portugueses, a quem os Mbayá tinham ajudado na expulsão dos espanhóis. Por isso, estudos não atribuem aos ‘paulistas’, com suas bandeiras, a conquista do território fronteiriço, muito disputado com os espanhóis. Decorre daí que o Sul do Mato Grosso, pertencente hoje ao território brasileiro, ser resultado de muita luta e resistência dos índios Guaicuru.
A poderosa e extensa nação Guaicuru e a parte dela mais ostensivamente atacante contra os espanhóis foi, progressivamente, se aproximando e estabelecendo relações com os brasileiros, até que um novo comandante do Forte Coimbra levou o cacique e um grupo de guerreiros à presença do governador para assinar um tratado de paz com os portugueses. Em 1791, os Kadiwéu assinaram o ‘Tratado de Perpétua Paz e Amizade’ com a Coroa Portuguesa – único tratado da história brasileira firmado entre uma Nação Indígena e a Coroa. Tal acordo foi considerado sem precedentes na historiografia indígena do Brasil por consolidar a condição do grupo como súditos da Coroa Portuguesa. Se, por um lado ficaram sob a proteção da Coroa, por outro, suas andanças foram restringindas, assim como suas áreas de atuação. Esse marco histórico alterou o estilo nômade que lhes outorgava auto-suficiência política, econômica e social. Embora persistentes na resistência e na hostilidade, participaram com os brasileiros na guerra do Paraguai e, com o término dessa, ficaram limitados territorialmente nas Terras Indígenas (TI) onde vivem atualmente, ao sul do Pantanal Mato-grossense, sob jurisdição do município de Porto Murtinho, com entradas pelos municípios de Bodoquena e de Bonito.
Localização, Sedentarização e Dados Populacionais
A Terra Indígena Kadiwéu está localizada entre a Serra de Bodoquena (leste), o Rio Niutaca (norte, nordeste), Rio Nabileque (oeste), Rio Paraguai (sudoeste) e rio Aquidabã (sul). O território mede 538.536 hectares e foi cadastrado no município de Porto Murtinho, no Mato Grosso do Sul. Internamente, estão distribuídos em cinco aldeias: Bodoquena (Alves de Barros), Barro Preto, Campina, São João e Tomázia. As duas maiores aldeias são Bodoquena (Alves de Barros) e São João.
A acomodação dos Kadiwéu em terras fixas, depois da assinatura do “tratado de eterna paz e amizade”, trouxe a necessidade de ocupação de todo território. Essa ocupação se deu através da divisão da terra em fazendas, segundo a estrutura social hierarquizada que se organizam. Essa forma trouxe como conseqüência vários tipos de tensões, entre elas o aglutinamento em torno dos “Postos Indígenas” (PI), estilo adotado tanto pelo antigo SPI, quanto atualmente pela FUNAI.
Famílias nucleares moram nas sedes das fazendas, a fim de controlar as cabeças de gado dos arrendatários e evitar invasões nos trechos mais isolados. Há outros núcleos indígenas espalhados pelo território, formados por famílias compostas por pais, filhos, genros, noras e netos que não moravam nas sedes das fazendas e não possuíam outra moradia em nenhuma das aldeias. Outras famílias residem por um período na aldeia e outro na fazenda, principalmente homens cujas famílias permanecem nas aldeias enquanto eles se deslocam para proteger as terras. A população do grupo, estimada desde os séculos XVIII a XX, foi configurada no quadro, a seguir.
Tabela I. Dados Populacionais
ANO POPULAÇÃO FONTE ABRANGÊNCIA 1770 7.000 a 8.000 Sánchez-Labrador Mbayá 1791/1801 3.800 Azara Kadiwéu 1803 680 Almeida Serra Kadiwéu 1848 850 Diretório dos Índios/Cuiabá Kadiwéu 1872 800 (não identificado) Kadiwéu 1892 200 Boggiani Kadiwéu 1939 100 Erich Freudt Kadiwéu 1948 235 Darcy Ribeiro Kadiwéu 1983 850 FUNAI Kadiwéu 1985 1.105 FUNAI Kadiwéu 1989 1.070 FUNAI Kadiwéu 1993 1.265 Inst. Socioambiental Kadiwéu 2005 Funasa Fontes: Siqueira Jr., 1993; CEDI/Inst. Socioambiental, 1994, FUNASA, 2005.
O quadro populacional mostra que no decorrer do ano de 1803 à 1948, o quantitativo de pessoas foi consideravelmente diminuído, embora não se tenha análises conclusivas sobre as causas. Nos dados de 1989 a população estava distribuída entre as fazendas das cinco aldeias e o baixo índice populacional foi foi atribuído à imprecisão dos censos realizados pela FUNAI, tendo em vista que não houve epidemias ou migrações. Os índices mais altos, entre 1985 a 1989, são devidos a um relativo crescimento populacional na Aldeia Bodoquena (Alves de Barros), atribuído ao interesse despertado nos habitantes das fazendas, pela rearticulação e funcionamento da escola.
Festas
Para os Kadiwéu, as festas da cultura tinham e têm vários significados. Elas reforçam os laços de solidariedade interna da comunidade por sua característica didática de socialização e iniciação das crianças e jovens. As festas também suspendem os períodos de luto, possibilitam a recordação das danças e de músicas tradicionais. Os mais velhos desempenham importantes papéis, juntamente com as lideranças, quando organizam as festas da cultura. As festas podem ser: [a] de caráter intercomunitário, como a festa-da-moça, a festa do bobo e a festa do navio; [b] inseridas na esfera interétnica do grupo por meio das relações de contato, como a nacionalmente instituída festa do dia do índio, realizada dia 19 de abril e, [c] instituídas pelos próprios Kadiwéu, como a festa de 2 de junho, celebrada para comemorar a retomada das fazendas invadidas por fazendeiros, ou “brancos”, quando os indígenas utilizaram suas estratégias guerreiras para vencererm.
Formação do Guerreiro
Uma das versões do mito de criação para os Kadiwéu se deu quando Go-noêno-gôdi, personagem central da mitologia Kadiwéu, complementado pelo Caracará (ave de rapina da região do Pantanal), outro herói mitológico cuja característica é a argúcia retiram os humanos de um buraco. O mundo estava criado e quando iam tirando cada grupo indígena desse buraco ou de um saco, ofereciam a um grupo a agricultura, a caça para outros, mas esqueceram de designar algo para os Kadiwéu. O Caracará ao perceber que os Kadiwéu foram esquecidos e que nada sobrara para eles, propôs ficaram com a função de oprimir, guerrear e explorar os demais povos.
Esse acordo singular, firmado com as divindades, fundamenta a índole do grupo e dá significado à personalidade ideal definida pela cultura, concebida como sendo de um grande guerreiro. A índole guerreira não foi, portanto, elaborada através do contato com os brancos ou com a integração do cavalo. Os mitos espelham esse espírito guerreiro, inscritos na mentalidade senhorial e nos costumes ligados ao nomadismo. Dessa forma, o espírito guerreiro foi reforçado e desenvolvido pela incorporação do cavalo e pela necessidade de impor resistência aos espanhóis invasores.
Na formação desse guerreiro, vários fatores estavam envolvidos. A mãe desempenhava um papel restrito apenas à fase da infância, quando os cuidados se desdobravam, não permitindo desagrado às crianças, punições ou sanções. As fases de crescimento e desenvolvimento das crianças da nobreza eram acompanhadas por festas. Era ‘festa do desmame’, quando a criança rompia os vínculos de aleitamento materno; ‘festa dos primeiros passos’, quando a criança alcançada a bipedia; ‘festa dos primeiros jogos’, quando o infante passava a se socializar por meio dos jogos. Após essas fases, os jovens deixavam de receber os cuidados da mãe e iniciavam a participação em outros rituais. Estes tinham o caráter de formar o menino e/ou guerreiro e a ‘festa para ser homem’ consistia em provas de coragem e ousadia que compunham o perfil masculino.
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