Publicado em 23 abr 2026 • por Adersino Valensoela Gomes Junior •
Quando uma escola mergulha na história e entende que uma palavra pode mudar tudo
A educação para a diversidade étnico-cultural se consolida como compromisso na vida em sociedade e a Escola Estadual Luísa Vidal Borges Daniel, em Campo Grande, conseguiu transformar o tradicional 17 de abril em uma experiência pedagógica de desconstrução e ampliação da consciência.
Mais do que celebrar uma data, a iniciativa problematizou a própria forma como a sociedade nomeia, representa e pensa os povos originários, partindo de uma provocação simples e poderosa.
Qual a diferença entre dizer Índio e dizer Povos Indígenas?

Uma palavra e um mundo de equívocos
A acolhida questionou o uso da categoria “Índio”, um tanto genérica, polissêmica e carregada de estereótipos como o “bom selvagem” ou o “exótico conectado à natureza”, que tende a universalizar e homogeneizar povos de culturas, línguas e cosmovisões especiais.
No lugar, a escola propôs o deslocamento epistêmico para Povos Indígenas, uma denominação política que reconhece a pluralidade étnico-cultural e afirma a especificidade de cada povo.
Os Povos Indígenas são mais de 300 etnias distintas no Brasil, cada uma com língua, organização social e modo de vida próprios, e o Mato Grosso do Sul abriga a terceira maior população indígena do Brasil.
São 116.469 pessoas, o equivalente a 6,9% do total do país. Mais da metade (59%) vive em terras indígenas, em uma população majoritariamente jovem, entre 15 e 29 anos, e com leve predominância de mulheres. (*)

Os protagonistas da desconstrução
A metodologia escolhida foi lúdica e intencional. Artefatos indígenas de diversas etnias de Mato Grosso do Sul e do Brasil foram apresentados como ponto de partida para a reflexão sobre a diversidade interna dos povos originários.
Um jogo de memória com personalidades indígenas brasileiras, narradas por vozes contemporâneas, convidou os estudantes a revisitar a história e reconhecer identidades culturais que o currículo hegemonicamente ocidental ainda tende a apagar.

Os mediadores da descolonização
A proposta partiu de uma intencionalidade pedagógica clara; provocar nos estudantes um exercício de descolonização do pensamento, desconstruindo equívocos que seguem sendo reproduzidos historicamente em diversos espaços educativos, incluindo os próprios artefatos culturais que circulam na escola.
A iniciativa dialoga com o pensamento de pesquisadores como Grupioni e Calderoni, que fundamentam a necessidade de rever o lugar dos povos indígenas no currículo escolar.

A escola como espaço de consciência
Ao propor uma acolhida que vai além da celebração simbólica, a EE Luísa Vidal Borges Daniel reafirma que educar para a diversidade é também educar contra o preconceito, e que esse trabalho começa na escolha das palavras que a escola decide ensinar.
A diretora Valéria de Oliveira reforça que o estudante entende que a diferença entre Índio e Povos Indígenas ultrapassa a troca da nomenclatura. “Nossos estudantes estão aprendendo a respeitar a existência de centenas de povos que constroem, junto com ele, a diversidade do Brasil.”
(*) fonte: Agência de Notícias MS
Gilberto Junior, SED
Fotos: arquivo escolar